19 de fevereiro de 2009

Da janela do escritório do apartamento, a vista é maravilhosa. As 17:23 o sol bate na lateral dos prédios, brilhando e tudo ganha a cor de ouro. Ela tinha então 36 minutos livres (passou 1 enquanto escrevia) até as 18 horas. Muitas pessoas esperam pela chegada das 18 horas, para sair do trabalho, ir para academia, toda quarta ir jantar na casa da mãe, ir para aula de box, sair correndo do trabalho e ir tomar um drink, ir pra casa correndo para ler o final daquele livro que ficou aberto no finalzinho noite anterior ou simplesmente fazer o que der na telha, ela não, ela não queria nada dessas coisas, mas todo os dias da sua vida, há 8 anos, espera pela chegada das 18 horas.
É o horário em que o filho sai da escola. Houve épocas em que ela ía buscar, hoje vai quando o trabalho permite. É a hora de dar um abraço e tentar entrar no mundo dele "como foi seu dia filho?" e depois de uma tradicional resposta "foi legal", saber que irá repetir a pergunta "mas como foi?" e aí ele vê que não terá escapatória e conta metade, viaja na outra metade, partilhando como na cabecinha dele foi o incrível dia na escola.
Durante oito anos vivo pelo horário de outra pessoa. Nem todo mundo sabe o que é isso, nem sei se todas as mães sabem, mas eu sou uma mãe assim, sendo isso bom ou não. É como se você não pensar nele, ninguém vai pensar. Ela saía depois dele dormir, assistia um filme entre uma mamadeira e outra, tomava banho na soneca da tarde, tentava agendar, entre deixar e pegar na casa do amigo, algo para fazer, nem sempre conseguia. Isso quando não tinha que trabalhar.
Ter filho é algo inexplicável, temos todos os motivos financeiros, profissionais, egoístas para não tê-los, mesmo assim, é algo que todo mundo, durando essa vontade para sempre ou por algum segundos, já pensou em tê-los. E não há, nada no mundo, que seja tão incrível e acrescente tanto quanto isso.
Ela só se deu por gente aos 23, mas desde os 15 quando engravidou fingia o ter dado, só para dar conta. E continua tentando ao máximo.
Hoje o Dr. pergunta o que ela quer, quem ela é, o que sente, mas só agora ela começa a dar, e ter, tempo para procurar as respostas. Procurar respostas para se achar quando para outra pessoa, você já é alguém. Hoje ele já faz muita coisa sozinho, que ela acha que ele não dá conta e toma um susto quando descobre que já dá conta de muito mais, é difícil, eles crescem. Não é difícil aceitar que cresceram, mas sim engavetar nossos medos e deixá-los viver os próprios tombos, a vontade é de não deixar ele ter roxos nos joelhos, mesmo sabendo que as minhas cicatrizes me fizeram crescer.
Muitas amigas já perguntaram, como é ter filho cedo? Acho que a melhor resposta é:
Se alguém te fizesse a pergunta: "quer ir ao cinema hoje?" O que você responderia? Se você não tem filhos pensa "hum, não tenho nada marcado com minha mãe, não tenho namorado, hoje não tem aula de piano, posso ir!". Eu penso: "não posso pedir para a empregada dormir lá em casa 3 vezes na mesma semana, tem reunião de pais as 20 horas, tenho que passar no mercado porque o leite acabou e acho que não vai dar tempo... Não vai dar, obrigada!"
E hoje, aos 25 ela tem algumas horas livres, e mal sabe o que fazer com ela mesma, mal sabe do que gosta, descobrindo tudo como se tivesse 15 anos. Hoje, entre seus horários, muito mais fáceis pra mim, apesar de não estar presente em todos, estou com a cabeça lá. E querendo ou não, estou. E vejo aquele menino crescer, bonito, inteligente, torcendo para que realize seus sonhos e seja feliz, enquanto eu sentada escrevendo penso: quais são os meus?

5 comentários:

  1. que lindo post jay!
    um dia estranho hoje e por isso sem muitas palavras para expressar o sentimento que seu texto gerou em mim... mas foi delicioso ler você escrever isso. Uma impressão gostosa de acompanhar seu crescimento e perceber a cada dia mais maturidade na sua relação com ele e com vc.
    um beijo.

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  2. Como te disse há pouco nessa janelinha que compartilhamos durante o dia: hoje, e por esse post, te conheço um pouco mais. É um dos textos mais transparentes que eu já li.
    Entendi um pouco mais da mulher que vc é, da mãe que você teve que ser e da pessoa que vc quer se tornar. Só te digo uma coisa: tem pessoas que só percebem que têm esse tempo para olhar para dentro muito tarde. Você tem 25 anos. É jovem e, mulher.... não há nada MAIS libertador do que a juventude.
    Você ainda tem duas VIDAS inteiras pela frente para descobrir quem você é. Que puta sorte! Vai ser um caminho inesquecível, ainda mais com um menino bonito, que, logo, logo, vai se transformar em um grande amigo.
    Parabéns pelo post.
    É lindo!

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  3. As vezes as vida parece um malabarismo com bolinhas. Mais difícil ainda quando outros atiram suas bolinhas na nosso jogo também.
    Good Lord! Sempre soube que escola de circo poderia ajudar para alguma coisa.

    Rs...

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  4. Fazia tempo que não passava no seu blog... E ainda preciso ir te visitar, hehe! Bjos, saudades!

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