29 de janeiro de 2009

Andava mexendo, rodando a saia roxa, toda cheia de retalhos, que é muito parecida com as roupas que a mãe gosta. O jeito esquecido de falar, que para no meio e se perde, é igual ao do pai. O sotaque é uma mistura. O partido político não é o mesmo que nenhum dos dois. Na foto ela viu que a mistura está lá, a mistura do mundo, dos pais, dos amigos, das emoções. Tudo impresso. O corpo imprime.
Está lá estampado tudo que o pai quis que ela fosse, tudo que ela não quis ser como os pais, tudo que a mãe disse ser igual a ela, tudo que o filho acha ridículo, tudo o que ela acreditou em algum momento ou que se frustrou por não ser. Seja amor, seja cor, seja imagem, seja som.
E balançando a saia roxa, ouvia Raul, lembrando do tio que tirava foto de raios em dia de chuva. Ela cantarolou como a mãe fazia, dançou como o filho a achava ridícula fazendo isso, ela sentiu a mistura.
Se rebelou quando tentou não ser igual, foi forte quando viu que teria que mostras as desigualdades, sofreu por não se idenficar e hoje sorri, sorri feliz porque não precisa provar nada pra ninguém. Sofre por não poder mostrar e ser as coisas pra ela mesma.
Ela sentou e comeu um pão de queijo, droga, ela nunca consegue não comer. Ela sorriu ao fechar a porta e ver Hopper e sua menina em lugar comum, sozinha, que hoje não está mais sozinha e sim compartilhando a vida de várias pessoas. Ela leu antes de dormir, mas está pensando em outro livro. Ela abraçou uma amiga que a faz acreditar nela mesma quando ela estava quase desistindo. Ela ganhou um abraço de amor daquele que sabe mais dela do que ela mesma.
Ela luta para ser o que não quer ser, mas não para não ser igual a alguém, e sim para ser melhor do que ela mesma. E ela sabe que ela é uma mistura de tudo que não e que sim, e que mais um pouco, e que no fim, pode ser bom. Que espera que seja.

Um comentário:

  1. isso foi maravilhoso. Digressão? Uau... deixe-a vir com todos os seus adverbios de tempo e espaço.

    "E ela sabe que ela é uma mistura de tudo que não e que sim, e que mais um pouco, e que no fim, pode ser bom." - posso usar isso numa letra de música?

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