Sexta-feira, 7:17 da noite. Um calor digno de um bar aberto na esquina e para fazer dar mais vontade de sair de casa o vizinho, que provavelmente conseguiu comprar um ingresso para o show da Madonna, resolveu decorar todas as músicas dela em um dia. Já que amanhã não tem trabalho... Toca o celular:- Oie Jay, como vai você?
- Oi! Tudo bem e você?
- Calor, vamos sair?
- Vamos, te encontro no Astor?
- Em 15 minutos!
- Beijo, até lá.
E pronto, fácil assim e o desejo foi realizado. Enquanto ela esperava pela amiga em pé, na mesa de espera na frente do bar, na mesa ao lado duas amigas conversavam. Animadas faziam o papo ser ouvido por todos em volta, ou nem tanto, mas por estar sozinha ela acabou prestando atenção na conversa apesar da mãe já ter falado que isso era muito feio. Agora ela se permitia sem pudor.
Alguns minutos depois, a mesa é liberada, com o copo de chopp senta e devaneia sobre o que acabava de presenciar. O que acontece para que a mulher, mesmo falando tanto, não consiga se expressar? E elas (nós) acham que se expressam! As duas falavam ao mesmo tempo, e concordavam ou discordavam, e voltavam a concordar numa rapidez quase impossível de acompanhar. E riam e comentavam de algo em volta no meio de um desabafo profundo de uma relação difícil com o ex-marido. Todas as gavetas da memória se abriram e mostraram vários momentos em que ela foi exatamente assim. Falando rápido, pensando rápido, reagindo rápido e se arrependendo rápido, ou não. Mudar de opinião não é um problema. Mas é um problema, pelo menos vejo assim agora, posso não ver assim daqui alguns minutos sob influência de um bom argumento, não conseguir falar coisas simples e claras, porque é muita emoção ou educação, ou simplesmente aceitar como natural não parar para pensar. Ou achar que para. Ou ainda mais, porque a mulher pensa tando para falar ou fazer coisas que deveriam ser tão simples? E tão pouco para outras que merecem mais atenção?
Era, sem dúvidas, um real problema pra ela que poderia dar mil opiniões sobre qualquer outra coisa mas falar uma frase clara sobre si era difícil a ponto de gaguejar. Fato, isso faria o Dr. Plínio falar com certeza mais do que quatro frases em uma sessão. De volta ao chopp, porque a empadinha de camarão já tinha chegado e porque ela já começava a pensar em como descreveria a ligação que tinha recebido para ir ao bar com 170 palavras a menos.
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