Os dias entre o fim do outono e começo do inverno são os preferidos dela. Temperatura agradável, céu azul maior do que o comum, sol dourado que faz de toda grama cintilante e que se empenha nos fins de tarde, ao se despedir pintando suas infinitas cores no céu, a chamar a atenção das pessoas que andam apressadas e já não conseguem olhar para cima, para o lado, para qualquer que lugar que não seja seu próprio umbigo tentando suprir a necessidade de ser alguém para um mundo capitalista. O mundo que impõe que você seja mais e melhor, em tudo, o tempo todo. Mundo que já não a atrai. Agora é inverno, tempo onde a cama fica muito fria quando você mais a quer e aconchegante quando você tem que querer sair.
Enrolada na manta e relutando em enfrentar a cama fria injusta ela esquenta as pernas enquanto reflete sua decisão de não querer esse mundo. Não, não quero ser pop, aceito que não vou reinventar a roda, nem serei o sucesso que o mundo quer que todos sejam e que em troca, não dá felicidade e sim ansiedade, fazendo com que você só viva da angústia do que vai ser amanhã, porque ser, só hoje, não é o suficiente.
Ela lê o relatório individual do seu filho no primeiro semestre na escola, vem então um momento que viveu na semana passada, quando explicava ao filho as consequências de cada um dos dois caminhos que ele tinha que optar em seguir e escuta um frustrado "ah, agora tudo tem consequência...", e assimila com outras sensações o quão verdadeira e importante é a descoberta de seu pequeno para com as escolhas e atitudes na vida. O relatório que tem 5 folhas escritas sobre como ele assimilou tudo o que foi proposto ao grupo declara um resultado bastante desastroso. Lá está, escrito em bom português toda a leitura do pouco desempenho seu filho, em subtexto, uma boa parte de muitas consequências acumuladas.
Ela pensa no futuro que quer para o filho e sabe que não quer que ele receba o prêmio Nobel, que fale cinco idiomas, toque guitarra numa banda famosa ou seja faixa preta no kung fu, ela hoje, e daqui pra frente, ajudar a fazer com que ele se conheça, conhecendo de tudo e descubra o que o faz feliz, e seja, como for, com as consequências e prêmios que vierem.
Ela vê retratos de pessoas desconhecidas, imagina suas diferenças e tenta adivinhar o que as movimenta, tentando achar uma resposta para ela mesma. Ela se delicia ao descobrir que cada pessoa é um mundo, tão grande e tão profundo como o mundo que ela vê pela janela com suas milhares formas e cores. Mundo de cada um que pode mudar ao primeiro vento que o fizer despertar. Ventos que ela quer que batam sempre em seu jardim de flores coloridas. Ela admira a imensão de cada um e olha para ela tentando descobrir, o que ela ama, o que ela quer, o que a faz simplesmente feliz, para assim achar a energia de ser e fazer, que agora não sabe por onde anda.
Horas depois, ainda sentada, já sem foco apesar dos óculos com 4 graus fazendo com que tudo fique nítido, ela se sente vazia e leve. Vazia por não saber o que a movimenta. Leve por saber que não tem a responsabilidade de ser para o mundo nada que ela não queira, que ninguém a pode cobrar a não ser ela mesma, pois é responsável por sua felicidade.
Ela fecha as janelas de vidro, não para não ver mais o mundo enorme que tem lá fora, mas para primeiro descobrir o signifcado das coisas, para que assim elas possam existir, e quem sabe assim ela possa estar nele sem se perder.
Isso é tudo o que tem pra hoje, o resto, quando descobrir, prometo dividir.
Com a pintura de Wu Guanzhong, que pintou seus bonitos pontos de vista sobre essa vida que ele já deixou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário