Quando criança tinha a idéia de que quem tinha criado-mudo era adulto. O nome do móvel já era sério e os amigos que ela tinha não usavam. Somente os pais deles ou avós. Aí sim, não faltava o móvel ao lado da cama, cada um com sua personalidade e seus badulaques em cima, mostrando como era a pessoa a quem ele servia. Desde que foi morar sozinha aos 17 anos com o filho já sonhava em ter um criado-mudo. Teve uma caixa de papelão forrada, um banquinho, uma cadeira, uma 3T, uma bandeja, mas nunca teve o tão desejado criado-mudo. Se alguém já passou pelo processo de querer um, sabe o quanto é caro, e até então nunca coube um de madeira com três gavetas no orçamento. Era algo que remetia a quando ela era pequena, queria um cachorro e ganhou um passarinho, peixe, coelho, tartaruga, menos o cachorro.
Numa quinta-feira a tarde, depois de uma sessão de cinema da mostra e um açaí gelado com a amiga mineira, para comemorar o film de uma semana de família doente, hospital com filho internado, muito remédio de gosto ruim e poucas horas de sono ela viu na porta de uma loja, com a placa de promoção ele, madeira escura, três gavetas, alto e pela metade do preço!!! A amiga não entendia tamanha alegria mas ria junto e finalmente, depois de mais de um ano de casada, ela aposentou a bandeja e tem três gavetas, sem nada dentro por enquanto, mas com a luminária, seus óculos e Bunuel ao seu lado. Talvez por isso ela se deu 19 anos, pela alegria adolescente e exagerada de realizar algo a ponto de tomar um sorvete para comemorar e ligar para a mãe para contar.
Contou também sobre o novo sorriso do filho durante a festa da escola, ela e outras mães falando sobre a fase do aparelho nos dentes. Eu lembrando de como eu achava um saco ter que usar aparelho, as outras mães dizendo que no tempo delas não se usava e ele se divertindo, mostrando pra todo mundo o motivo da nova responsabilidade de cuidar, lavar e principalmente usar. Alí ela se sentiu aos 34. O filho já tem 9 e meu pai sempre dizia que filho faz a gente envelhecer 10 anos em 1. Acho que de certa forma ele tem razão, já parece que vivi tanto e é algo que exige tanta responsabilidade que chego aos 34 fácil. Não mais do que isso porque a maturidade e conhecimento não deixariam.
Idade pra ela se tornou algo descartável. Optou em contar a idade pelos momentos que viveu durante seus 25 anos como após dez anos uma amiga veio do Rio para visitar Sampa, e a outra, que mora em Sampa mas por essa cidade louca se veem pouco, receberam a benção do São Cristóvam para brindar a década de amizade. E mesmo depois de tantos anos, o sorriso não mudou, a naturalidade, a intimidade igual nas caminhadas na beira da praia indo para o colégio aos 15 anos de idade. A única mudança eram os colares que a vida presenteou ao longo dos anos, os primeiros de muito espero, que muitos insistem em chamar de rugas.
Quibe assado bem feito, finalmente, a família reunida na mesa, um jogo de chá oriental de presente, as melhores caipirinhas de frutas vermelhas do mundo e aquele papo, que vai sendo jogado fora sem pressa matando a saudade e atualizando as novidades.
Talvez elas já estejam se precavendo para os nossos nostálgicos encontros aos 70 anos, no chá da tarde, onde falaremos de nossos novos colares, dos cabelos do passado, das viagens do futuro. Eu falarei com carinho do dia em que um rapaz com uma gaita tocou "La vie en rose" no aeroporto de repente, enquanto eu depois de horas de trabalho mal conseguia ficar em pé e a música me encheu de alegria, de quando meu marido recitou Sabina nas suas declarações de amor, de como gostava da sensação das folhas caindo ao som da música no ipod quando o vendo as derruba com força fazendo um redemoinho, das inumeras vezes que meu filho sorriu pra mim, com ou sem aparelho e de todos os nossos encontros pela vida. Iremos comemorar como nada mudou, ou na verdade, como mudou para melhor.
Nunca vi tanta importância assim nos criados mudos... os meus ficam cheios de meias...finas, grossas, curtas, compridas...
ResponderExcluirEngraçado como a noção de o que nos faz grandes é tão diferentes. Pra mim, ser independente, ter seu próprio apartamento era ser grande...rs.
To quase grande....ainda chego lá.